quinta-feira, 7 de maio de 2009

A interioridade no pensamento de Santo Agostinho

Noli foras ire, in teipsum redi: in interiore homine habitat veritas ("Não vás fora, entra em ti mesmo: no homem interior habita a verdade"). (Santo Agostinho)

Santo Agostinho (Aurelius Augustinus, 354-430 d.C.) - bispo de Hipona durante trinta e quatro anos e mais importante filósofo do período patrístico - foi um mestre da interioridade. Sua filosofia insiste na importância do homem interior, do voltar-se para si mesmo - na aposta de que a felicidade não pode ser encontrada no âmbito da exterioridade, e sim na esfera da intimidade. Ou seja, ao inspecionar o seu próprio espírito, o homem transitaria do exterior para o interior onde descobriria - na profundidade do Eu - o Absoluto, ou seja, Deus, verdade íntima em cada indivíduo. Neste sentido, Deus só poderia ser realmente encontrado através de um itinerário introspectivo. Observa-se então a influência que o pensamento de Platão e sobretudo do neoplatônico Plotino, pensadores da antiguidade, tiveram na filosofia agostiniana. Para Platão existe um mundo inteligível (de idéias perfeitas) que é o responsável pela existência do mundo sensível (esse em que nós vivemos, onde estão as cópias imperfeitas das idéias perfeitas). Através de uma dialética ascendente o homem - anteriormente preso "à caverna", aos "enganos dos sentidos" - pode se aproximar das idéias perfeitas, tornar-se um filósofo e "se salvar"; isto é Platão. Já para Plotino, o mundo inteligível se compõe de três partes: o Uno (realidade perfeita, inefável, imutável), o Nous (inteligência) e a Psique (Alma). O Uno gera o Nous, que gera a Psique, que gera o mundo sensível, tal como nós o conhecemos. Cada etapa deste processo - emanativo - é denominado hipóstase. A matéria, privada do bem, é má. Se tudo veio do Uno, tudo deve retornar ao Uno; isto é Plotino. O que há, portanto, na filosofia platônica, neoplatônica e agostiniana é uma hierarquização da existência pela divisão entre mundo superior e mundo material, a noção de que a verdade não pode ser encontrada simplesmente na relação homem-mundo exterior, e a idéia de que o ser humano tende a retornar para aquilo que lhe originou. Platão - influenciado por Pitágoras - acredita na teoria da metempsicose (reencarnação, transmigração da alma de um corpo para outro); antes de reencarnar, isto é, entre uma vida e outra, a alma (imortal) teria a oportunidade de contemplar as idéias perfeitas no mundo inteligível, ideal. Ao reencarnar, ao misturar-se com um corpo que acaba de nascer, a alma esquece temporariamente as idéias apreendidas anteriormente na esfera superior; assim, a percepção das coisas sensíveis seria um estímulo à reevocação das idéias inatas. Isto é importante: o mundo exterior para Platão se apresenta como o primeiro passo rumo à verdade, e não como verdade pronta; a verdade - plena - não está fora do homem, e sim dentro do homem. Tanto é que, ainda de acordo com o platonismo, o homem tem uma alma onisciente, que tudo sabe, mas ela "se esquece daquilo que sabe"; para Agostinho, Deus é verdade íntima no homem, fundamento primeiro e último do ser.


É preciso, entretanto, salientar as diferenças fundamentais entre Santo Agostinho e seus antecessores. Deus, para Plotino, não cria o mundo - ele emana; a idéia aqui é de que a partir de Deus vão se originando sucessivos graus de realidade; o mundo sensível constituiria a mais imperfeita dentre essas realidades que são emanadas inicialmente de uma realidade primeira e perfeita. O Deus de Plotino é o Uno, e o Deus de Platão é o Demiurgo, e eles são deuses impessoais, diferentes do Deus de Agostinho, que é cristão, antropomorfizado, pessoal, misericordioso, que conscientemente cria o mundo, o homem e o tempo. Plotino recebe influências do cristianismo, mas não é um cristão de fato, como Santo Agostinho o é. O conceito de criação é alheio ao pensamento grego antigo. De acordo com Platão e Plotino, o mundo sensível é resultado da emanação de uma matéria informe já existente (e que sempre existiu; isto é: nunca houve nada porque para o grego nada vem do nada). O Deus do Bíblia cristã cria - este sim do nada, tal como está escrito no Gênesis - uma nova realidade. E é neste sentido que a filosofia de Santo Agostinho pode ser considerada um divisor de águas na história da humanidade, pois marca a passagem entre a forma de pensar dos gregos antigos para a forma de pensar dos cristãos. Cria-se, portanto, a noção de criação. Agostinho viveu na chamada antiguidade tardia (fim do século IV, começo do século V), de modo que chegou a ver o mundo com olhos pagãos (antes de se converter ao cristianismo foi um pagão); por esta razão é possível dizer que foi, de certa maneira, o último homem antigo e - ao mesmo tempo - o primeiro homem medieval; por um lado agrega no seu pensamento aspectos da filosofia antiga e por outro vai separando-se dela.

Há na filosofia agostiniana uma relação de harmonia entre Fé e Razão; a fé não pretende amaldiçoar a razão, a razão não pretende desmentir a fé. Seu pensamento propõe uma filosofia teológica e uma teologia filosófica. Um homem não poderia crer se fosse um animal irracional - logo, é a razão que possibilita e explica a fé. Assim, a fé - para o bispo de Hipona - é também razão; não é mera aposta conveniente (como em Pascal) ou um mero lançar-se (como em Kierkegaard). Para Agostinho existem duas Razões: uma precede a fé, e a outra procede a fé. Ou seja, a fé se encontra no meio. A primeira razão (de abertura) - que ainda não foi iluminada pela fé - dá indicíos de que vale a pena crer. A segunda razão - já iluminada pela fé - busca entender aquilo no que crê. A razão possibilita o livre-arbítrio. Na filosofia agostiniana liberdade é o uso correto do livre-arbítrio, ou seja, nas palavras de Santo Anselmo: "querer o que se deve". Observa-se então uma diferença em relação ao conceito moderno, onde liberdade tem o significado de autonomia individual. Ao dizer "Ama e faz o que tu quiseres. Se calares, calarás com amor; se gritares, gritarás com amor; se corrigires, corrigirás com amor; se perdoares, perdoarás com amor. Se tiveres o amor enraizado em ti, nenhuma coisa senão o amor serão os teus frutos", Agostinho anuncia uma liberdade necessariamente presa, atrelada ao amor - condição, para ele, imprescindível na fuga do pecado. Toda forma de liberdade que não tem o amor como pressuposto é, na metafísica agostiniana, escravidão. O uso equivocado do livre-arbítrio é a origem do mal no mundo - mas este mal não existe em si mesmo e sim como carência de bem; o mal é privação, depende da corrupção do bem para se constituir como mal. Adão e Eva não escolheram entre o bem e o mal (não há Sumo Mal), mas sim entre o Sumo Bem (a vontade de Deus) e os bens inferiores (o fruto proibido). Se Deus é verdade íntima no homem, ao se afastar de Deus, o homem se afasta de si mesmo; ao se esquecer de Deus, se esquece de si mesmo. É quando o homem cai em dispersão e vive angustiado. Entretanto, Agostinho alerta que esse afastamento nunca se dá de maneira completa; se um homem ainda existe, é porque Deus continua sustentando o seu ser - e aí reside a esperança. A reaproximação com Deus se daria através de uma trajetória inversa: ao invés de primeiro procurar a si mesmo, dizer "quem eu sou", e somente depois procurar Deus e dizer "quem é Deus", o homem teria de primeiro procurar Deus e dizer "quem é Deus". Para Agostinho, Deus não se afasta do homem, mas o homem é quem se afasta de Deus. Portanto, acredita que se a criatura - despida de orgulho - for capaz de dizer quem é o seu Criador, o Criador poderá - por fim - pegar esta criatura no colo e dizer quem ela é.

Sero te amavi, pulchritudo tam antiqua et tam nova ("Tarde te amei, ó beleza tão antiga e tão nova"). (Santo Agostinho)

* Ficam como dicas de leitura, além - obviamente - das obras do próprio Agostinho, os livros Introdução ao Estudo de Santo Agostinho, de Étienne Gilson (já falecido filósofo francês), A razão em exercício - Estudos sobre a filosofia de Agostinho, de Moacyr Ayres Novaes Filho (professor de Filosofia da USP), e A Relação entre Deus e o Mal Segundo Santo Agostinho, de Joel Gracioso (professor de Filosofia do UNIFAI).

Rafael Issa é graduando em Filosofia na Universidade de São Paulo (USP) e formado em Comunicação Social pela Universidade Metodista de São Paulo (UMESP).

domingo, 26 de abril de 2009

A FALTA DE LAICIDADE PODE TRAZER PROBLEMAS AO ESTADO?


Provavelmente você que lê este artigo já deve ter encontrado em alguma repartição pública um crucifixo ou alguma imagem de santos católicos, e se acaso você se lembra de tal fato, não sendo católico, deve - ou ainda não – ter se perguntado: se o Estado é laico, porque tais símbolos ainda preenchem tais espaços? Recentemente li em um artigo de uma revista sobre filosofia a qual assino que tais símbolos causam desrespeito às diferenças religiosas e a isonomia entre as pessoas. Será?

O artigo em questão chama-se O poder da Fé, do jornalista Rodrigo Gallo, nele ele aponta como sendo um problema a existência de tais símbolos religiosos. Ele também destaca a visão de um filósofo da Unicamp chamado Roberto Romano que vê a relação entre Igreja e Estado como sendo “nociva” a sociedade pelo fato do pensamento cristão (e nas entrelinhas católico) é carregado de dogmas como o aborto, a união de homossexuais, o uso de preservativos e as pesquisas com células tronco por exemplo. Em um Estado não-laico ele afirma que tais questões “não possuiriam espaço e que inibiriam os jovens levando-os a iniciar uma vida sexual sem qualquer orientação. Será?

Em países como Portugal e França, ações pró-laicas vêm sendo tomadas para evitar o que para ele é uma “discriminação”. Em Portugal, por exemplo, tornou-se proibido utilizar nomes de santos em instituições públicas; na França tornou-se proibido qualquer tipo símbolos religiosos em instituições públicas, inclusive as crianças islâmicas que vivem neste país, tiveram que abandonar suas burcas para poder freqüentar a escola. Todas estas atitudes me levam a suscitar uma pergunta: Existirá a tão sonhada isonomia (igualdade) no Estado se tomadas estas decisões em nosso país, ou nestes países que citei? Ou então aquela pergunta que habita a maioria das pessoas: Não existe coisa mais importante para se fazer?

Bom, quanto a laicidade do Estado eu não vejo problema algum em retirar os santos e os crucifixos das instituições, se realmente causam tantos problemas, se eles chegam a “ofender” aos não católicos, que assim seja. O problema é muito mais profundo do que aparenta. O homem como se sabe, quer desde o surgimento da filosofia moderna tomar o lugar de Deus, a religião é vista como ideologia, alienação, loucura e, portanto, tem seu espaço reduzido na sociedade. Ao contrário do que diz Romano quando ele afirma que em um Estado não-laico questões como aborto e células tronco não encontrariam espaço, a Igreja quer sim o debate sobre tais questões, pois ela sabe qual é o verdadeiro motivo que o Estado que a aprovação de tais leis: econômico. Por trás desta luta pela aprovação das pesquisas com células tronco e conseqüentemente o aborto estão grandes empresas farmacêuticas que aguardam ansiosamente a aprovação de tais leis para faturar bilhões de dólares. Não podemos ser ingênuos se acreditarmos nesta conversa divulgada pelos defensores de tal causa que muitas vidas poderão ser salvas e muitos deficientes poderão recuperar seus movimentos; isto será acessível apenas aos que possuem meios financeiros para tal, o Estado Brasileiro com certeza não irá arcar com tais despesas disponibilizando-as no S.U.S, tanto é verdade que vemos muitos casos de pessoas com doenças raras e que precisam de medicamentos caros para continuar sobrevivendo precisam entrar na justiça para exigir que o Estado responsabilize-se pela compra de tal medicamento. Não é a Igreja que torna difícil o debate, mas sim o próprio Estado. Pensem como seria bem mais fácil aprovar tal lei sem o consentimento da população sobre tais questões, até porque não me lembro de nenhum plebiscito referente tais questões e se elas irão realmente beneficiar o povo; podemos tomar como analogia o surgimento da tão comentada TV Digital (HDTV). Pergunto-lhe, quantas pessoas que você - que agora lê este artigo - possui o tão aclamado receptor de baixo custo? Vamos para dois anos desde o seu surgimento e ainda vejo muitas antenas repletas de Bombril!

E quanto à isonomia tão aclamada que viria com a laicidade do Estado, não acredito que ela virá, até porque o autor deste artigo deveria saber que a revista que a qual ele escreveu tal artigo não é de um preço tão acessível a todas as pessoas ( e nem a mim que é mais uma dívida entre muitas que assumi), portanto nem todos tem o acesso igual a todos os tipos de meios de comunicação. O Estado não oferece isonomia na educação, na saúde, na segurança pública, nas moradias populares e não é através da retirada de símbolos que ele irá dar o primeiro passo para essa igualdade. O capitalismo impede qualquer tipo de igualdade/isonomia, quem tem é superior aquele que não tem.

As diferentes vertentes religiosas existentes devem sim ser respeitadas e tratadas sim em igualdade pelo Estado. Acredito que a liberdade se dá justamente no surgimento da oposição, onde as idéias podem ser debatidas e conseqüentemente nos colocaríamos no caminho da verdade. Em contrapartida existem alguns assuntos tratados com certa ambigüidade de interesses, não que este assunto não seja importante, mas em um país onde quem rouba um pão com manteiga para matar sua fome – não que seja uma justificativa para o ato, pois roubar nunca é correto – corre o risco de ficar preso por até três anos e é tratado como um marginal, não procurando compreender o seu contexto de vida, tem por outro lado, banqueiros roubando milhões e soltos através de habeas corpus inumeráveis e desfrutando dos benefícios da lei. Qual isonomia queremos?

sexta-feira, 10 de abril de 2009





UM BISPO CORAJOSO X MÍDIA/GOVERNO "DEFENSORES DA VIDA"





No mês passado um assunto de grande polêmica repercutiu em todo o país onde um padrasto (se é que pode ser chamado como tal) engravidou sua própria filha de apenas nove anos. Infelizmente este seria mais um de muitos abusos que acontecem com as nossas crianças se não fosse por dois motivos: O primeiro é que a gravidez da menina (como desgraça pouca é bobagem!) era de gêmeos e, portanto uma gravidez de alto risco, visto que a menina possuía apenas nove anos sendo assim necessário – na visão dos médicos que acompanhavam o caso – o aborto, visando salvaguardar a vida da criança. O outro motivo – que foi o que deu importância ao caso - é a posição da Igreja Católica com relação ao aborto e a sua defesa em valor da vida, que no caso em questão anunciava a excomunhão dos médicos e da família da menina caso estes optassem pelo aborto das crianças.
E o aborto aconteceu. A excomunhão também. E os ataques a Igreja considerada como “medieval”, “atrasada”, entre outros começaram. E não foram poucos, todos os tipos de meios de comunicação condenavam a atitude do bispo Dom José Cardoso Sobrinho da Arquidiocese de Olinda, por ter excomungado a equipe médica que participou do aborto das crianças e também a mãe da menina. Do palácio do Planalto o nosso ministro da Saúde José Gomes Temporão classificou a atitude do bispo e conseqüentemente da Igreja Católica como “lamentável” e o Presidente da República, o popular Lula classificou a atitude da Igreja como “conservadora”.
Com base em tudo isso que citei, convém agora refletirmos um pouco. A Igreja Católica tem – como já dito acima – em seu fundamento a defesa da vida e por isso que ela condena qualquer tipo de atentado a essa mesma vida desde a sua geração até a sua velhice. Seria meio estranho, e até contraditório, que o posicionamento da Igreja em favor do aborto destas crianças, pois, se ela defende a vida não a pode defender em alguns momentos e sim na sua totalidade. Esta semana ouvi que a posição da Igreja foi “exagerada”, ora se ela é a favor da vida não ter outro tipo de posição, não existe um meio termo, ou é ou não é. A Igreja antes de tudo confia em Deus, será que Ele não seria capaz de garantir de garantir a vida a esta menina? A Escritura Sagrada nos diz que Sara mulher de Abraão, concebeu Isaac já em sua velhice contrariando toda a sua natureza, visto que Sara ao ouvir a mensagem do anjo pôs-se a rir (Gn18, 12), ou seja, nem ela mesma acredita que poderia ser mãe; a mesma Escritura nos diz também que Jesus nasceu do ventre de Maria que era virgem, ela de uma forma totalmente diferente de Sara, ao ouvir a anunciação do anjo perguntou-lhe como isso se daria visto que era virgem, e o anjo ao dizer como ela iria conceber o menino, terminou a anunciação dizendo que “para Deus nada é impossível.” (Lc 1, 37).
O Estado Brasileiro, ao contrário não confia em Deus. Muito menos seus governantes, eles confiam na contingência da ciência. Quem é que pode me garantir que aquela criança morreria? Alguns podem dizer-me que eles são médicos experientes, com muitos anos de profissão e que esta mesma experiência lhes garantiria este fato. Eu responderia citando o cético David Hume, ele em seu livro Investigação sobre o Entendimento Humano, nos diz citando o exemplo de uma bola de bilhar que, ao dermos uma tacada em uma bola “A” e esta movimentar outra bola “B”, o fato de que isso sempre aconteceu, ou seja, que seja uma constante que toda vez que eu bata numa bola ela movimente outra, não significa, necessariamente, que isso irá sempre acontecer. Da mesma forma o fato do sol ter nascido todos os dias de minha vida até este momento, nada – absolutamente NADA – me garante que o sol irá nascer amanhã. É o hábito, o costume que me faz tornar necessário, aquilo que a experiência me coloca, Hume quer com isso afirmar que a necessidade não existe nas coisas e sim em nosso espírito.
Portanto, a posição dos médicos no caso desta menina no meu modo de ver é arbitrária, inconseqüente e acima de tudo irresponsável tanto do meu ponto de vista filosófico, como mostrei acima, como de meu ponto de vista cristão e católico, visto que para Deus nada é impossível. Em ambos os casos pode até haver posições contrárias, mas não podemos encontrar nenhum absurdo em ambos os pontos. Tomaram uma decisão da qual eles não poderiam garantir nada, se fundaram em algo contingente, mutável, com 99,9% de certeza, mas não 100%.
Nosso estado, pelo contrário, não é exemplo de garantia de vida para ninguém. Observando o ponto de vista de aspecto “superior” de nosso presidente e de nosso ministro da saúde, até nos dá a impressão de que nosso país é o melhor para se viver, um país justo e igual. Será? O ministro da saúde, que é aquele que adora distribuir camisinhas no carnaval, ou seja, não importa a idade para se fazer sexo, importa sim é estar protegido; ele ao criticar as leis da Igreja, não vê também que em nosso país as leis no âmbito da saúde sequer são cumpridas? Se você que lê este artigo, precisar de um hospital público deve reservar duas horas (pelo menos!!) para ser atendido, mas esse “ser atendido” ao qual me refiro não é um atendimento de qualidade que compensasse tanta espera, pelo contrário, esse atendimento é apenas primário você irá a uma outra fila, em frente a sala do médico desejado, e aguardar mais alguns instantes, que na maioria das vezes não são instantes. Nem vou citar o caso do Rio de Janeiro, que há algum tempo atrás, o mosquito da dengue foi mais presente que pernilongos em noites quentes de verão, e também aqueles casos onde as pessoas vão embora sem qualquer tipo de auxílio médico, isso quando não morrem na fila....Bom deixemos nossa saúde que não é “lamentável” quanto as leis da Igreja, pelo contrário, são bem humanas como nos exemplos que citei acima, ás vezes até acho que o povo reclama de barriga cheia, afinal o que é esperar duas, três horas para ser atendido de graça???? O que é uma picada de Aedes Egypti? Se depois de picado teremos um atendimento de qualidade...
Partindo da saúde, e refletindo sobre as leis criminais deste país veremos que o padrasto que cometeu esta barbaridade, daqui a alguns anos - se ele se comportar como um bom menino - estará solto novamente, pronto para estuprar mais alguém,vejam só como o nosso Lula tem razão em criticar a atitude da Igreja, afinal as nossas leis não são tão conservadoras quanto ás da Igreja, visto que as leis desta são milenares, já as do nosso Estado, referente nosso código penal é de outubro de 1941 (em comparação com as leis da Igreja não são tão conservadoras assim!!!). Assim, como temos um Estado justo, ele já prendeu o padrasto, conquanto que ele não tenha um bom advogado, pois sempre cabe algum Habeas Corpus...E não podemos esquecer que, até uma saída definitiva, ele poderá sair no natal, ano novo, dia das mães, dos pais, e vejam só até no dia das crianças!. Sem contar também que apesar de tantos casos de abusos contra crianças ainda não possuímos em nossa legislação, uma punição específica para a pedofilia, mas não podemos desanimar, uma hora ela aparece...
A mídia em si é ignorante não porque não possua pessoas preparadas para tal, até porque seríamos injustos em julgar o todo através de suas partes, mas sua ignorância reside no fato de que ela destaca notícias que sejam capazes de vender jornais e revistas, jamais encontraremos em uma capa de jornal tamanha exploração dos temas que citei acima referente a saúde ou a qualquer crime cometido, até porque há muitas “interferências” impedindo que isso aconteça. Mas, em meio a tantas críticas, o Bispo José Sobrinho mostrou o que a Igreja sempre defendeu e continuará defendendo: a Vida. Dessa maneira ela errou ao dizer que o Bispo excomungou tais pessoas, mas sim elas mesmas que, ao cometerem este duplo assassinato automaticamente se excomungaram, cabendo ao Bispo somente anunciar o fato. Da mesma forma, também o padrasto ao cometer tal atrocidade automaticamente se excluiu da comunhão da Igreja, mas nossa sociedade quer sangue, ela queria que também a Igreja se pronunciasse sobre este ato, como se ela não se importasse com ele. Mas uma questão muito maior estava em jogo, pois as vidas de duas crianças foram cruelmente dizimadas, elas não tiveram a chance de viver e por quê? Porque nossa sociedade, não toda mas a grande maioria, inclusive católicos, confia na medicina e na ciência. Não que não devesse confiar, pois ambas conseguiram grandes avanços que melhoraram e muito a qualidade de vida de muitas pessoas, mas a salvação de uma vida não pode e não deve acontecer pelo sangue de outra. O padrasto ao cometer tal fato, ele também se excluiu da comunhão da Igreja como os médicos que cometeram este duplo homicídio, mas o mundo não acabou para ambos; há a possibilidade do perdão, afinal Deus é amor.
Por fim, deixo uma questão: o que é pior o estupro ou a morte? Em qual deles há a possibilidade de um recomeço, mesmo que doloroso? A menina que foi brutalmente molestada, pode sim superar este trauma e viver...


Mas, e as crianças que ela esperava? Existirá um recomeço????












sábado, 21 de março de 2009




Uma visão Cristã e filosófica da morte

Depois de um tempo ausente (devido ao meu computador que esteve “enfermo” por um tempo), gostaria de refletir sobre um assunto que muitas vezes nos convida a reflexão – ou ás vezes não – e nos faz repensar também sobre a nossa condição: este assunto é a morte. Conseqüentemente, ao procurar investigar sobre este assunto me vem a mente duas perguntas que gostaria de discorrer: Por que morremos? A morte em si é boa ou é ruim?
Ao pensar filosoficamente a morte me vem como inspiração um texto da Hannah Arendt intitulado: O que é a filosofia da Existenz, retirado de seu livro A dignidade da Política, ao comentar sobre a filosofia kantiana ela nos mostra que apesar da genialidade de Kant em sua teoria, o fato de ele se “esquecer” da contingência do próprio homem, deixou transparecer a contradição em seu sistema.
Kant é o filósofo da liberdade, da autonomia do homem contra o antigo conceito de Ser, ao libertá-lo deste conceito Kant pretende assim devolver a dignidade outrora perdida. Com sua obra A Crítica da Razão Pura, todo e qualquer conceito para se tornar válido teria de passar obrigatoriamente pelo crivo da razão, a revolução copernicana de Kant que resultará nos juízos sintéticos a priori, irá colocar o homem como determinante e não mais como determinado, ou seja, como é o próprio sujeito que pensa este só conhece das coisas aquilo que a sua própria razão coloca; eis aí o fundamento dos juízos sintéticos a priori. E quais serão os desdobramentos posteriores acerca deste ponto? De acordo com Hannah Arendt, a partir deste pensamento que destrói a antiga concepção de Ser e pensamento destruiu também a harmonia existente entre o homem e o mundo:
“Com essa posição... o reino absoluto e racionalmente concebível das idéias e dos valores universais foi abatido em um só golpe; e o homem foi posto no meio de um mundo onde não havia mais nada em que pudesse confiar...” (A Dignidade da Política, pag.21)
Ao colocar a realidade em questão, Kant acreditava ter postulado um novo conceito de liberdade, quando na verdade é neste ponto em que a contradição aparece; o homem é capaz de determinar suas ações a partir de sua capacidade, mas, estas mesmas ações estão sujeitas á causalidade natural, ou seja, por mais livre que o homem pense que seja ele é escravo do destino, de algo que ele não pode determinar, como por exemplo, a morte.
Ao notar a escravidão do homem perante o Ser, saio neste momento da filosofia e parto rumo a uma visão cristã e católica do que imagino que seja a morte. Ao ler o texto de Hannah Arendt e notar através de suas palavras a escravidão humana, a visão de Agostinho logo encaixa perfeitamente com esta visão, pois ele é totalmente dependente de Deus e de sua vontade, é também escravo, mas como nos afirma S. Paulo: “Cristo nos libertou para que sejamos verdadeiramente livres. Portanto, fiquem firmes e não se submetam de novo ao jugo da escravidão” (Gal 5,1).
Antonino Tonna Barthet, em seu livro: Síntese da Espiritualidade Agostiniana nos oferece uma ótima visão agostiniana e, sobretudo cristã do que seja a morte. Segundo ele a morte é inevitável, todos nós – eu disse todos –a cada dia caminhamos em direção a ela impulsionados por um movimento igual, ou seja, apesar de uma vida ter se perdido de uma forma brusca e repentina caminhamos na mesma velocidade, assim o que se pode medir é o espaço de vida e não uma lentidão para a morte. Apesar de tentarmos evitá-la, ela é certa e virá; a cultura que nos é posta hoje é que a morte em si é uma coisa ruim, principalmente considerando as facilidades e praticidades deste mundo, fazemos de tudo para continuarmos aqui e se esquecemos que a ida é inevitável. A pergunta será a morte mesma ruim? Não. A morte é o encontro da alma com Deus, o problema é que estamos “escondendo o nosso tesouro na terra (MT 6,19)”, em vez de nos prepararmos para receber a morte tomamos o caminho contrário, como, aliás, se pudéssemos tomá-lo. A palavra de Deus não nos satisfaz, ela não é palpável E lenta e vivemos no mundo do delivery, não podemos esperar e procuramos soluções mais seguras que a medicina muito avançada hoje nos proporciona. Barthet em seu livro nos chama a atenção: “Onde, pois, estiver teu tesouro, diz, aí estará também teu coração (MT 6,21), neste momento onde está teu tesouro? Onde está aquilo que você mais valoriza? Pense antes de responder... ainda não terminei!
Lembra-te do da parábola do rico e do pobre Lázaro (Lc 16, 19-31)? Lembra-te de como era linda e confortável a vida do rico? Não lhe faltava nada, possuía tudo em abundância ao contrário Lázaro tinha apenas as migalhas que caiam da mesa de lázaro. Morreram os dois, e a situação se inverteu; Lázaro foi para o seio de Abraão e o rico foi para o meio dos tormentos, vendo a situação que estava Barthet destaca o sofrimento do rico em seu livro: Pai Abraão tem piedade de mim e envia Lázaro para que molhe seu dedo na água e pingue na minha língua, porque estou sofrendo nestas chamas (Lc 16,19), vejam só que contradição, Lázaro mesmo miserável tinha acesso as migalhas, já o rico que tudo tinha, nem um pingo de água possuía.
Portanto, morremos porque nascemos se assim não o fosse certamente não morreríamos como não é o nosso caso que possamos nos preparar para o dia em que ela chegar. A filosofia ao se deparar com a morte retorna à estaca zero, o homem que se considerava livre agora já não é, é dependente e escravo. Somos dependentes de Deus, isso não é possível negar e iremos ao seu encontro, agora se iremos ocupar a situação do pobre Lázaro ou do rico, isso não depende de Deus, neste momento recuperamos nossa liberdade e é ela que nos conduzirá a paz ou aos tormentos.

quinta-feira, 12 de março de 2009

A arte na visão de Friedrich Nietzsche

"A arte e nada mais que a arte! Ela é a grande possibilitadora da vida,
a grande aliciadora da vida, o grande estimulante da vida". (Friedrich Nietzsche)

É de autoria do filósofo alemão Friedrich Nietzsche (1844-1900) a frase "a arte existe para que a realidade não nos destrua"; Nietzsche acreditava que somente a arte poderia oferecer aos homens força e capacidade para enfrentar as dores da vida, fazendo-os "dizer sim" à ela. A própria vida, argumenta, justifica-se enquanto fenômeno estético - o mundo é um acontecimento estético. E é se voltando para os gregos antigos que Nietzsche faz um elogio da arte, destacando o seu papel "redentor". Mas não é a Grécia da escultura clássica - tão romantizada - que o filósofo elogia, e sim a Grécia pré-socrática, da tragédia antiga. Nela, o destino do herói é sofrer; desse modo, o espectador aceita o sofrimento como parte da vida, e resiste à ele. Ao apreciar uma obra como, por exemplo, Édipo-Rei, de Sófocles (496 a.C. - 406 a.C.), dobramos nossos pensamentos de repugnância a respeito do horrível. É na tragédia ática que, segundo Nietzsche em seu livro O Nascimento da Tragédia, se encontram sintetizados dois impulsos artísticos existentes na própria natureza: o apolíneo e o dionisíaco. Os termos são inspirados em Apolo (imagem) e Dioniso, deuses da mitologia grega. O primeiro pode ser associado à "luminosidade", racionalidade, à sabedoria, às artes plásticas, à estética do sonho, à busca pela perfeição da forma. É pela presença do apolíneo na natureza que cada coisa possui um contorno específico, distinguindo-se de todas as outras; por isso, Nietzsche identifica Apolo como o deus do princípio de individuação, princípio pelo qual, nas palavras do próprio filósofo, "nos sentimos indivíduos colocados em um ponto preciso do espaço e do tempo". A arte apolínea (a epopéia de Homero, por exemplo) seria então um impulso de ordenação do "caos da vida" - uma justificação estético-racional originada na perplexidade diante da natureza, do devir e do absurdo da existência. Por esta razão, acredita Nietzsche, os gregos criaram os deuses olímpicos, uma forma de estética apolínea, cujo intuito é mascarar os terrores da existência (por exemplo, a própria finitude da existência. A beleza é, então, criada artificialmente. Em sua obra Nietzsche e a Verdade, o comentador Roberto Machado - professor da UFRJ - afirma que "a beleza é uma aparência, um fenômeno, uma representação que tem por objetivo mascarar, encobrir, velar a verdade essencial do mundo. Para escapar do saber popular pessimista, o grego cria um mundo de beleza que, ao invés de expressar a verdade do mundo, é uma estratégia para que ela não ecloda. Produzir beleza significa se enganar na aparência e ocultar a verdadeira realidade". Pode-se dizer, portanto, que a consciência apolínea é uma espécie de véu de Maia, que substitui o mundo da verdade por formas belas.

Ao contrário, Dioniso (imagem) é identificado como o deus do êxtase, da música, da dança; não aparência e racionalidade, e sim instinto, paixão, sentimentos selvagens, embriaguez, loucura, caos, desmesura, disformidade, fúria sexual, vitalidade, alegria de viver; não princípio de individuação, mas "saída de si mesmo", abolição da subjetividade, sentimento místico de unidade, fusão do homem com a natureza e com os demais homens, desvelamento do mistério do Uno-Primitivo. O desenvolvimento da arte está, para o filósofo, ligado à duplicidade do dionisíaco e do apolíneo. O mundo grego teria, portanto, encontrado uma síntese entre estas duas tendências. Neste momento de integração entre Apolo e Dioniso, o primeiro transforma um fenômeno natural (o dionisíaco) em fenômeno estético; isto é, o dionisíaco puro, bárbaro, se torna arte na união com Apolo. De acordo com o professor Roberto Machado, "não se trata, em Nietzsche, de negar a aparência em nome da essência. Se o dionisíaco puro é aniquilador da vida, se só a arte torna possível uma experiência dionisíaca, não pode haver dionisíaco sem apolíneo. A visão trágica do mundo, tal como Nietzsche a interpreta, é um equilíbrio entre ilusão e a verdade, entre aparência e a essência". Nietzsche entendia que a tragédia tinha a função de ser um "tônico da vida". Aristóteles (384 a.C. - 322 a.C.), filósofo da Grécia antiga (pós-trágica, contudo), também preocupou-se - em sua obra Poética - com o estudo da tragédia, que seria, ao seu ver, mimese, ou seja, imitação de ações humanas (assim como toda arte poética, de acordo com o filósofo grego). O homem sentiria um prazer congênito na imitação, além de uma disposição natural para a melodia e o ritmo; assim teriam surgido as artes poéticas. Para Aristóteles, ao contrário do que pensava Nietzsche, a tragédia - a quem o filósofo grego deu uma atenção toda especial - tinha uma função moral: suscitando no público uma mescla do sentimento de terror com o sentimendo de piedade, provocaria a catarse dessas emoções, purificando o espírito do espectador de suas paixões "degradantes". Nietzsche acreditava justamente no oposto, isto é, que a função trágica era estimular - e não purificar - essas paixões. Nietzsche argumenta ainda que Aristóteles não teria percebido a existência do apolíneo e do dionisíaco na cena trágica. Esta cena terminaria com a vitória final da ironia socrática.


O filósofo Friedrich Nietzsche

O fim da tragédia. Mas como Nietzsche interpreta o fim da tragédia grega? Como resultado da racionalização da arte, fruto do processo progressivo de supremacia do espírito apolíneo, desencadeado pela influência do filósofo grego Sócrates (470 a.C. - 399 a.C.). Para Nietzsche, já com o tragedista Eurípides (480 a.C. - 406 a.C.) vai se eliminando da tragédia o elemento dionisíaco, em favor de elementos morais e intelectualistas - pregados pelo socratismo. E afirma: "pela boca de Eurípides falava Sócrates". Segundo o filósofo alemão, "Sócrates foi um equívoco", disse "não" à vida, pois combateu o fascínio dionisíaco. Sócrates - modelo do "homem teórico" - quis dominar a vida com a razão e aí teria começado a decadência da humanidade. De acordo com o nietzschianismo, a razão apolínea era uma aparência, e não verdade; Sócrates - antes disso - identifica razão e verdade, e condena a aparência. Em outras palavras: Sócrates faz triunfar o mundo abstrato do pensamento. Assim, a tragédia e posteriormente toda a civilização ocidental acabam invadidas pelo racionalismo. Sócrates acusa a arte de irracionalidade, de representar o agradável e não o útil, de não procurar a verdade e de desviar o homem do caminho da razão. Platão (428 a.C. - 347 a.C.), discípulo de Sócrates, segue o mesmo caminho do mestre: condena as artes. Para ele, a mimese não cria objetos originais, mas cópias da realidade sensível (que, por sua vez, é cópia imperfeita de uma realidade inteligível, o Mundo das Idéias) - ou seja, a arte seria, nesse caso, cópia da cópia, um simulacro, de modo que o artista "o terceiro na fila para o trono da verdade". Diante do desaparecimento da tragédia, Nietzsche - antipático à civilização moderna científica - sonhou com um processo de reestetização do mundo, isto é, com um renascimento da antiguidade grega, do dionisismo no espírito alemão, em nome de uma interpretação de mundo não racional, mas sim artística.

Rafael Issa é graduando em Filosofia pela Universidade de São Paulo e formado em Comunicação Social pela Universidade Metodista de São Paulo.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

O último vôo da andorinha solitária

Nesse post gostaria de lançar um texto de Renato Janine Ribeiro, professor titular do Departamento de Filosofia da Universidade de São Paulo (USP), sobre a filosofia no ensino médio! Boa leitura!
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Último vôo da andorinha solitária
O futuro da filosofia no ensino médio está na parceria com outras disciplinas

Renato Janine Ribeiro*
A volta da filosofia ao ensino médio tem história. Em 1976, quando começava a lecionar filosofia na USP, fui dos que defenderam essa bandeira. A matéria constou do currículo até o fim da década de 60, quando o ensino médio - então chamado de "colegial" e dividido em "científico" e "clássico", sendo que o primeiro tinha mais classes e alunos - sofreu um golpe em sua qualidade. A razão era óbvia. O regime militar não queria que os jovens pensassem. Daí, aliás, o destaque dado aos vestibulares "de cruzinhas". Mais tarde, vim a saber qual a boa razão para saírem as provas dissertativas e entrarem as questões de múltipla escolha. Respostas em forma de redação eram uma loteria: a nota dependia do que "caísse" na prova. Lembro o medo que tínhamos, crianças, de sair o ponto que conhecíamos menos. Por isso, um exame com maior número de assuntos, cobrindo todo o programa, é mais justo. Gera poucas notas máximas, mas poucas distorções. Hoje, podemos chegar a uma síntese entre os dois modos de prova. O teste é útil para aferir conhecimentos obtidos. A prova dissertativa mede bem a capacidade de reflexão. O risco das múltiplas questões é ficar só na informação: o bom examinador é o que exige, mesmo nelas, um trabalho de reflexão. Já a dissertação é uma bobagem se for usada para avaliar apenas a informação adquirida. Seu melhor uso é quando a pergunta é inesperada - e se vê como o aluno elabora o imprevisto.

Discutíamos o ensino médio opondo conhecimento formativo e meramente informativo. A filosofia, como a sociologia, representava a qualidade. A alternativa seriam informações sem análise. Vendo de longe, estávamos no olho do furacão. A pior repressão se deu entre 1969 e 1974. A filosofia, em 1970, tinha saído das escolas. Mas daí a meros seis anos já víamos o ensino médio como degradado. Uma das causas disso foi, curiosamente, democrática. Existia um "exame de admissão" para entrar no ginásio, isto é, para passar do 4.º para o 5.º ano do primeiro grau. Era cruel: um vestibular feito por crianças de 10 anos. A esse preço, o ensino público era bom. Tínhamos colégios públicos melhores que os privados - mas eram poucos. Na zona sul de São Paulo havia o Alberto Levy, o Ennio Voss, o Alberto Conte. Ora, a ditadura arrebentou essa tranca e deu aos pobres acesso ao ginásio público, mas, degradando sua qualidade, acabou com o papel que ele tinha, de gerar elites.

Nesse quadro, muitos - entre outros, Marilena Chauí - nos mobilizamos pela volta da filosofia ao ensino médio. Queríamos espaço para a reflexão. Quem conhecia bem o assunto era Celso Favaretto, professor da PUC e, depois, da USP. Celso fez uma observação importante - e inquietante: o professor de filosofia, quando bom, tinha-se tornado o professor de reflexão. Mas com isso ele discutia qualquer assunto: cinema, comportamento, MPB. Daí vinha um problema. Embora filosofia seja uma atitude, um estilo, uma simpatia maior pela pergunta do que pela resposta, essa atitude não se constrói no vazio. Supõe um corpus de 2.500 anos. Sem isso, temos só um animador cultural. Mesmo ele, para funcionar, precisa ter adquirido um "estilo" que passa pelos nossos clássicos. Estudar estes últimos, aos 15 anos de idade, não é trivial. Requer cultura. Exige o domínio da língua, não só para ler, mas também para escrever. Quem domina todos esses matizes, quando a educação é degradada? Vivemos esse nó. Ele continua vivo e não é fácil desatá-lo. Por isso, perdi a fé no papel pujante da filosofia no ensino médio. Não adianta querer que os jovens "pensem" em abstrato: é preciso pensarem a partir de uma formação intelectual concreta. Isso não é fácil, quando a mídia deprecia o conhecimento - e quando o discurso escrito destoa tanto do mundo de imagens e sons em que, cada vez mais, vivemos.

Mas isso não quer dizer que a filosofia não tenha papel no ensino médio. Há um problema: dá para ensiná-la sem conteúdos filosóficos? E como evitar que eles sejam pesados e até incompreensíveis? O que defendo é que a filosofia não seja, no ensino médio, uma andorinha solitária. Se os alunos não conhecerem as riquezas da língua, não entenderão a precisão de um texto filosófico. A primeira parceria é, pois, com o professor de português. É parceria de mão dupla, porque a filosofia também pode ajudar, com os conceitos, a estudar a literatura. Como estudar o romantismo sem a filosofia romântica - uma filosofia que vá além das generalidades sobre Madame de Stael visitando a Alemanha? As outras parcerias podem variar. Penso na história, associando a filosofia com a política, a cultura, as descobertas; nas ciências, discutindo o "espírito científico" e suas mudanças no século 20 e 21; até na educação física, pois os filósofos pensaram muito o corpo (e muito contra o corpo...). Podemos desenhar programas de filosofia a partir dessas parcerias. Só receio uma filosofia sem aliados - e isso porque duas ou três horas semanais, o que me parece o mínimo razoável, é pouco, se não ressoarem no resto do ambiente. (Para comparar, no clássico tive três horas de filosofia por semana no 1.º ano, quatro no 2.º e cinco no 3.º. Era a matéria mais presente. No científico, ela aparecia só duas horas semanais, no 2.º ano). Também, desde que se preserve um conteúdo duro que seja filosófico, simpatizo com discussões sobre temas da vida atual. Mas essas discussões, nascendo da política ou da cultura ou do comportamento, não podem dispensar conteúdos filosóficos nem se pulverizar: gosto da idéia de ciclos de filmes, que dialoguem entre si, falando, por exemplo, na condição social dos personagens, no amor que vivem, na vinda do imigrante, na luta contra a opressão. Há muito espaço para pensar e, portanto, para a filosofia.

*Doutor em filosofia, Renato Janine Ribeiro é professor titular do Departamento de Filosofia da Universidade de São Paulo (USP).

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Bento XVI e os bispos que negam o holocausto: As verdades e mentiras que foram ditas na mídia.

O Papa Bento XVI, no final de Janeiro levantou a excomunhão dos bispos da Fraternidade Sacerdotal São Pio X, e suscitou uma grande polêmica. Afinal um destes Bispos o sr. Dom Willamson, afirmou anteriormente em uma entrevista a uma emissora de TV sueca que o holocausto nunca existira e mais: que os 6 milhões de mortos nas câmaras de gás não passavam na verdade de 300.000. A atitude de Bento XVI parecia provocar um grande cisma entre judeus e católicos, pois, como pode o chefe supremo da Igreja, o sucessor de Pedro, acolher novamente tais bispos e no caso específico Dom Williamson que nega uma das maiores atrocidades já cometidas pelo homem? Estaria o papa, com a decisão de levantar a excomunhão destes bispos também fechando os olhos para tal tragédia?
Como sempre a mídia - que nada entende de religião - contribuiu e muito para esta grande confusão. Porque ela fez o óbvio: juntou a atitude do Papa com as palavras do bispo e qual o resultado? Várias críticas sobre a já muito criticada Igreja Católica Apostólica Romana, onde todos principalmente os intelectuais se baseavam em notícias de jornais como as que vou apresentar a seguir para apresentar suas críticas; sem contar o povo judeu que queria cortar relações com os católicos, justamente por tais declarações de tal bispo e que por coincidência ou não do destino aconteceram ao mesmo tempo do levantamento da excomunhão de cada um deles. Segue a seguir algumas das "manchetes" dos jornais sobre o assunto do qual tratamos e seus respectivos links:

PAPA REABILITA BISPO QUE NEGA O HOLOCAUSTO
http://www.abril.com.br/noticias/mundo/papa-reabilita-bispo-nega-holocausto-247650.shtml

REABILITAÇÃO DE BISPO QUE NEGA O HOLOCAUSTO REVOLTA OS JUDEUS
http://noticias.terra.com.br/mundo/interna/0,,OI3471069-EI312,00-Reabilitacao+de+bispo+que+nega+Holocausto+revolta+judeus.html

DECISÃO DO PAPA DE REABILITAR BISPO QUE NEGA O HOLOCAUSTO RECEBE VÁRIAS CRÍTICAS
http://tsf.sapo.pt/PaginaInicial/Internacional/Interior.aspx?content_id=1125357

Podemos agora, de posse de tais "manchetes", ir em busca da verdade e perceber o quanto é perigosa uma mídia desinformada. Como eu disse no início, a decisão do Papa em levantar a excomunhão de tais bispos juntou, como diz o ditado: "a fome com a vontade de comer", pois ela aconteceu logo após as declarações do tal bispo e provocaram esse verdadeiro "alvoroço" pois todos se voltaram contra a Igreja Católica e com certeza criticaram, sem é claro saber como tudo aconteceu.
Iniciemos nossa reflexão em busca da verdade voltando no tempo, mais precisamente no dia 11 de Outubro de 1962, quando sob o papado de João XXIII iniciou-se o Concílio Vaticano II. Este concílio se caracterizava como um "aggiornamento" e um "retorno ás fontes", ou seja , a Igreja sentia a necessidade de uma atualização, o que não significa que a palavra de Deus também precise, pois ela é perene e imutável mas sim adaptá-la - podemos dizer assim - ás novas necessidades que a própria Igreja precisava corresponder e o "retorno ás fontes" significava uma redescoberta das riquezas espirituais nos primórdios da Igreja. Mas, essa nova visão que a Igreja buscava não agradou a alguns setores tradicionalistas da Igreja, como por exemplo o fim da missa ser celebrada em latim, com o surgimento da chamada "missa nova", das comunidades religiosas formadas na grande maioria das vezes por leigos consagrados mas, tendo sempre como responsável um sacerdote ou um bispo, dentre outras.....Por mais que não houvesse agradado alguns setores da Igreja um Concílio deve ser obedecido, caso contrário, ocorre uma excomunhão automática, que também ocorre quando a pessoa não aceita um papa eleito de forma legítima, afastando-se assim da unidade da Igreja.
No caso referente a excomunhão dos bispos em questão, ela não aconteceu em nenhum dos dois casos e sim porque receberam a ordenação episcopal, ou seja, o chamado ao bispado sem o chamado do Santo Padre, como manda a lei da Igreja. Nesse caso também ocorre uma excomunhão automática, onde a Igreja ao notar tais fatos torna pública a excomunhão. Agora que sabemos qual foi o motivo da excomunhão dos quatro bispos da Fraternidade Sacerdotal São Pio X, convido a entendermos o motivo pelo qual o Papa chamou-os de volta a unidade da Igreja.
A excomunhão é a pena mais grave imposta pela Igreja Católica a um fiel, ela pode acontecer de várias maneiras, e também não significa a perda do vínculo espiritual com a Igreja, a não ser em casos da perda da fé. O Santo Padre, recebeu um pedido do prelado desta Fraternidade pedindo a anulação desta excomunhão em 15 de Dezembro de 2008, pedido esse feito após um longo período de diálogo com a Sé Apostólica, e decidiu por cancelar a pena de excomunhão que fora aplicada a estes bispos que, na carta enviada ao pontífice declaram estar convictos de que são Católicos e que reconhecem o Papa Bento XVI, como sucessor de Pedro e chefe da Igreja fundada por Jesus Cristo. É bom deixar claro que apesar do cancelamento da excomunhão estes bispos ainda não estão em comunhão plena com a Igreja e ainda não podem exercer o ministério episcopal. Segue abaixo o link da carta da Congregação dos Bispos, escrita pelo prefeito da congregação Cardeal Giovanni Battista :
http://212.77.1.245/news_services/bulletin/news/23251.php?index=23251&lang=it

Isto posto, vemos então o real motivo o Papa Bento XVI anulou a sentença de excomunhão dos quatro bispos da Fraternidade Sacerdotal São Pio X. Isso a mídia não divulga não porque não quer, mas, porque não sabe!!!! Não tem interesse em saber, o que interessa na verdade é vender jornais, promover o ódio e polemizar.
É claro que o holocausto existiu, e é mais claro ainda que o tal bispo errou (e muito!) ao negar tal fato, mas a opinião dele não é a opinião da Igreja. Agora, este mesmo bispo que disse tal besteira, se retratou e pediu desculpas, mas infelizmente, a mídia não pode noticiar e por quê? Por que não vende!!! Segue abaixo o link referente o pedido de perdão ao Santo Padre, do Bispo Dom Williamson, que também se encontra no site Dinoscopus:
http://www.montfort.org.br/index.php?secao=veritas&subsecao=igreja&artigo=pedido-perdao-williamson〈=bra

Portanto, vemos que não somente neste caso, mas em outros casos, em outras esferas da sociedade recebemos na maioria das vezes as notícias pela metade. No caso da religião isso se torna ainda pior, pois muitos que leram ou ouviram tais notícias se voltaram contra a Igreja Católicos - incluindo aí muitos católicos - que provavelmente tomaram decisões influenciados pelo fervor das notícias. Assim, se você que lê este artigo e continua em dúvida os links estão aí para comprovar; agora se você que lê este artigo e não é católico e disse que o Papa é a imagem do demônio (sic), reveja as formas pelas quais se informa, pois muitas vezes o demônio veste terno e gravata e apresenta telejornais!!!!



Walmir Cardoso é graduando em filosofia pelo Centro Universitário Assunção - UNIFAI

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

A vida feliz - parte 2

Hoje a noção de felicidade está, infelizmente, muito atrelada à idéia de sucesso material, consumismo e prazer imediato. Alguns estudiosos da pós-modernidade falam em "era do vazio". Um deles, Jair Ferreira dos Santos (autor do livro O que é Pós-Moderno?), afirma que o "espírito" do homem contemporâneo se traduz na seguinte sentença: "Marx morreu, Deus também, e eu não me sinto muito bem". O que ele quer dizer com isso? Que os ideais maiores - aqueles que davam sentido à nossa existência - como por exemplo a utopia socialista de Marx e o cristianismo, acabaram perdendo espaço. Com isso, restou uma ausência de sentido; este "mal-estar" e este sentimento de vazio é a grande marca deste começo de século XXI - é o nosso Zeitgeist. Note: quando filosofias como a marxista ou a cristã enfraquecem, enfraquece também a noção de história, de linha do tempo. No marxismo, a noção de história se traduz no itinerário pré-capitalismo, capitalismo, luta de classes, revolução e socialismo; no cristianismo é o itinerário do Gênesis até o Apocalipse. Ou seja, em ambos os casos há uma noção de passado-presente-futuro, e de um futuro que será melhor do que o passado e o presente, isto é, de um futuro no qual as opressões passadas e presentes não mais existirão. Neste sentido, revolução socialista e o apocalipse se assemelham, porque são rupturas radicais rumo à "algo melhor". Na pós-modernidade, perdemos essa noção de historicidade, não nos vemos mais inseridos na história, e aí, perdendo-se esta linha do tempo, perdemos, além do passado e do presente, a idéia de futuro, a esperança na construção de um futuro. Por isso que hoje filosofias como a do "carpe diem" ("aproveite o momento presente") estão tão em moda. Quando perde-se a idéia de história, de amanhã, de futuro, de utopia, de esperança, só nos resta mesmo aproveitar ao máximo o "dia de hoje". O carpe diem é, portanto, no fundo, uma filosofia do desespero, do desespero pós-moderno. Este estilo de vida, porém, não nos satisfaz. Por isso hoje a literatura de auto-ajuda faz tanto sucesso. Ao mesmo tempo em que "tenta" suprir um vazio existencial e apontar um sentido para a existência, procura indicar o caminho do sucesso em termos práticos (como adquirir um emprego, como agradar o seu chefe, como ganhar dinheiro etc...). Esse boom de igrejas evangélicas na televisão aponta esta mesma tendência: a filosofia pregada pelo carpe diem não é o suficiente para nos fazer felizes, precisamos de "algo mais". O problema, porém, tanto na auto-ajuda quanto nestas igrejas evangélicas é que, na verdade, elas não estão realmente compromissadas com uma "recuperação dos sentidos de viver"; ao contrário, o seu único objetivo é lucrar com o sentimento de vazio que assola o homem contemporâneo. Se por um lado as pessoas sentem intimamente uma necessidade de "algo mais", por outro elas continuam influenciadas pela filosofia do carpe diem, que tem na publicidade o seu maior porta-voz. As coisas acabam se misturando. Aquela pessoa que, por um lado, busca "algo mais", em contrapartida, movida pelo espírito tipicamente imediatista do "carpe diem", almeja "curas" e resultados imediatos. Promete-se, justamente aonde a filosofia do "carpe diem" deveria ser refutada, a satisfação desse ideal hedonista. Ao invés de se contraporem à esta lógica imediatista, tanto a auto-ajuda quanto essas igrejas evangélicas se calcam por ela. Por isso fazem tanto sucesso. Prometem cura e alimento espiritual (que é o que nos falta nessa era do vazio), mas de maneira rápida e prática; neste sentido, são oportunistas, porque esse "mistão" de pseudoespiritualidade misturado com filosofia do carpe diem oferecem justamente aquilo que o "público consumidor" (sim, público consumidor) espera: suprir o vazio imediatamente. Nunca você vai ouvir o pastor de uma grande igreja dizer que "Deus não dá as coisas de mão beijada e não se importa com carros do ano", ou mesmo mostrando para seus fiéis que um itinerário de evolução espiritual requer paciência, tempo, e que não deve se pautar por uma "lógica de resultados".

Foto: Sede de uma igreja Universal; Hoje as pessoas procuram "auxílio espiritual" porque não se sentem plenamente felizes numa sociedade que cultua o "carpe diem". Por outro lado, paradoxalmente, continuam influenciadas e seduzidas por esta filosofia do "aqui-e-agora". Assim, essas igrejas de televisão, fingindo-se contrárias à esta lógica imediatista, estão - na verdade - nela fundamentadas.

Uma dessas igrejas faz, inclusive, uma "corrente de oração" para empresários (como se os empresários fossem, numa sociedade desigual como a nossa, os mais necessitados de orações). A religião, neste caso, se vulgariza, se banaliza, torna-se mercado. Está muito visível, na cena da contemporaneidade, que o homem precisa de "algo mais" para sentir-se feliz. Mas, sob a influência de uma sociedade capaz de mercantilizar e imediatizar até mesmo possíveis "caminhos de cura", o homem pós-moderno fica sem alcançar esse "algo mais". A felicidade, quando aparece, não se dá de uma maneira plena, completa, mas sim de forma artificial.

Rafael Issa é graduando em Filosofia pela Universidade de São Paulo e formado em Comunicação Social pela Universidade Metodista de São Paulo.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

A vida feliz para Santo Agostinho x A vida feliz para o mundo de hoje

Em um mundo onde cada pessoa é única, encontraremos também opiniões, crenças e pensamentos diversos sobre vários assuntos, mas, em uma coisa todos - eu disse TODOS - tem uma coisa em comum: o desejo de ser feliz. Não encontraremos nenhuma pessoa neste mundo que não queira ser feliz, nem que seja por um instante, todos procuram a felicidade. Assim,sabendo que cada pessoa tem consigo o desejo de ser feliz, esse desejo não é o mesmo entre todos. Cada um tem a sua maneira de ser feliz ou alcançar a felicidade; uns são felizes cometendo delitos, outros enganando e há aqueles que buscam a felicidade mas, não sabem o que realmente seja ser feliz. Dessa maneira suscita-se em nós algumas perguntas: O que é realmente ser feliz? Qual a verdadeira felicidade? E ainda uma outra: Porque desejamos tanto a felicidade?

Segundo Santo Agostinho a vida feliz consiste em possuir a Deus, como ele mesmo relata em seu livro Confissões : A vida feliz consiste em nos alegrarmos em Vós, de Vós e por Vós. Eis a vida feliz, e não há outra. os que julgam que existe outra apegam-se a uma alegria que não é a verdadeira." (Conf. X,22,32) Agostinho não chega a essa conclusão de uma forma arbitrária, baseada em "achismos", ela é fruto de uma intensa reflexão sobre a sua própria experiência pessoal. Mas antes de chegar a esta conclusão, uma outra pergunta inquietava a Agostinho: Como procurar, então, a vida feliz?(Conf. X,20,29)
Para responder a esta pergunta, Agostinho parte da memória, que segundo ele é o "ventre da alma". A memória é para Agostinho de suma importância, pois é ela que armazena tudo o que é captado por nossos sentidos de uma forma organizada, mesmo aquelas lembranças mais antigas estão devidamente guardadas em nossa memória. E não só o que é captado pelos sentidos mas também as ciências que são captadas por nós através do nosso intelecto e que também são armazenadas em nossa memória. Essa importância que Agostinho dá a memória no Livro X das Confissões não é por acaso, afinal se procuramos e desejamos tanto ser feliz, é porque esse desejo está em nossa memória. Mas como? Agostinho então cita o Evangelho de S. Lucas Cap. 15 vers. 8, que fala da mulher que tendo dez dracmas, ao perder uma, procura a dracma perdida e não descansa até encontrá-la. Ele cita este texto para afirmar que se a mulher não se recordasse de sua moeda jamais poderia encontrá-la. Da mesma forma, a vida feliz que tanto procuramos, como a mulher que no Evangelho procura a Dracma, deve estar também em nossa memória como a dracma perdida. O problema está em saber como esse desejo por essa vida entrou nela, pois como Agostinho diz não pode ter sido através dos sentidos pois a felicidade não é um corpo, e nem como as ciências pois estas ao recebermos em nosso intelecto não a desejamos, ao contrário da vida feliz que desejamos possuir.
A resposta encontrada por Agostinho para essa questão que vem de sua influência platônica, é que esse desejo pela felicidade e outras idéias que possuímos, desde nossa infância,estão em nós de uma forma inata, e que apenas nos recordamos delas no decorrer de nossa vida. A novidade que Agostinho propõe é que essa lembrança é feita através de uma iluminação divina, ou seja, Deus em sua infinita misericórdia, concede á aqueles que o procuram o caminho, a direção, pois o homem por si só não é capaz de encontrar a Deus, a vida feliz.
Em nossos dias a procura pela felicidade está associada a prosperidade, o que não é nenhum erro desejar possuir bens para que possam tornar a nossa vida um pouco mais confortável, o problema está na importância que damos a este desejo. Em um mundo passando por uma grave crise financeira com milhares de pessoas no mundo inteiro perdendo seus empregos, a procura por Deus e sua misericórdia está em destaque. A idéia de que uma vida feliz está associada a posse de bens, distorce a idéia de vida feliz proposta por Santo Agostinho. Agostinho procurava uma verdade, uma felicidade que não perece, que não desapareça com tempo, procurava a Deus. Confiava a Ele todas as suas necessidades e principalmente suas conquistas, hoje em dia as pessoas não conseguem mais confiar em Deus e por que? Pelo fato de que as pessoas se espelham naqueles que são prósperos, seguem modelos humanos de felicidade e prosperidade, aliando às conquistas destas pessoas a posse de Deus. Sendo assim aqueles que ainda não as possuem, ainda precisam se doar mais, acreditar mais, como se Deus precisasse de nossas orações para fazer a nossa vontade.
Portanto, para Santo Agostinho a vida feliz, como dito acima, consiste na posse de Deus. Para o mundo consiste na posse de bens. Deus para Agostinho está em um caráter principal, dele provém tudo, ao contrário, para o mundo Deus está em um caráter secundário, onde a confiança em Deus em momentos difícieis parece algo possível de se conseguir, a confiança que o dinheiro e a posse de bens nos traz parece sufocar a posse de Deus. A grande diferença está em que a posse de bens está condicionada ao momento, hoje temos amanhã ninguém não se sabe. A posse de Deus é perpétua, não sofre abalos nem incertezas. Se a filosofia de Agostinho, para muitos não é a melhor, é pelo menos mais segura. E para você, o que é ser feliz?

domingo, 1 de fevereiro de 2009

Compromisso na televisão

Não dá para negar: a atual programação da nossa tv aberta é de péssima qualidade - um festival de mau gosto, salvo raríssimas exceções. A única maneira de reverter este quadro é criando novas regras para a televisão brasileira. O problema, porém, ao propor "regras para a tv", é que boa parte da opinião pública e dos políticos (além, claro, das próprias emissoras de televisão) defenderiam a tese de que este é um caminho anti-democrático, um retorno à censura. A população torceria o nariz. Mas será que essas regras realmente caracterizariam um "retorno à censura"?

Programas como A Tarde é Sua, SuperPop e Malhação representam o que há de pior na televisão brasileira

Novas regras, medida democrática. De fato é preciso preservar (e fazer avançar) as liberdades democráticas em nosso país. Contudo, democracia não é sinônimo de "pode tudo". Todo país precisa de regras capazes inclusive de garantir e ampliar a democracia. Por esta razão, a televisão brasileira precisa urgentemente de cotas de compromisso. Cada emissora deveria se comprometer a usar parte da sua programação para transmitir programas socialmente responsáveis. Confesso que, leigo em questões de legislação, não sei até que ponto já são exigidos dos canais de televisão comprometimentos assim. Provavelmente as leis referentes à tv fazem recomendações deste tipo, sem entretanto cobrar efetivamente que tais compromissos sejam assumidos. O que de toda forma parece-me claro é que, se existem recomendações ou mesmo cobranças neste sentido, possuem impacto irrisório sobre o produto final. Isto não deve significar que o Estado rigorosamente idealize e controle as produções advindas destas cotas de compromisso (o que inevitavelmente traria o risco de partidarização da tv); o que ele deve é garantir que os canais abertos dediquem uma parcela da sua grade horária à programas comprometidos com a cultura, com a educação, com a criança, com a inclusão social, com uma discussão política mais aprofundada, com debates sobre questões socialmente relevantes etc. As emissoras abertas poderiam, inclusive, repartir estes compromissos. Problema: ao produzir programas fundados nesta proposta, como iríamos decidir quais seriam adequados à ela e quais não? Bem, estes critérios teriam de ser discutidos com mais profundidade. Talvez uma comissão de Ética - temperada com professores, acadêmicos, especialistas na área de comunicação, psicólogos, filósofos, sindicatos, ongs etc - pudesse fazer tal julgamento (o que parece muito mais coerente e democrático do que mera sujeição à decisão de apenas seis donos de emissora). É uma sugestão, outras poderiam ser levantadas. De toda forma, com isso nós não estaríamos destruindo os espaços de livre-criação daqueles que fazem a tv ou banindo os programas que buscam entreter - mas sim equilibrando, diversificando a televisão, impedindo que o entretenimento (vulgar, na maioria dos casos) tenha a hegemonia que atualmente possui. Permitiríamos assim o acesso do público à um outro universo, em que houvesse um contraste harmonioso entre diversão, humor, informação, ludicidade e responsabilidade social. Em outras palavras: fazendo "mais democracia", e não "menos democracia". Uma televisão não ser controlada ou censurada pelo Estado não garante que ela seja essencialmente democrática; o público hoje, na verdade, está submetido às opções (pouco variadas) oferecidas por meia dúzia de empresários intocáveis que comandam os canais abertos e que visivelmente estão objetivando apenas audiência e lucro. O que verdadeiramente lhes interessa é que seus programas - independentemente de qualidade - tenham audiência; assim, poderão cobrar mais dinheiro de seus anunciantes. Por isso se faz uma programação tão nivelada pelo baixo nível cultural da grande maioria da população (na qual, sim, incluo também as classes média e alta, que não deixam de ser incultas e irreflexivas), e não uma programação cujo fim fosse fazer o espectador se superar, se "elevar". Segundo Renato Janine Ribeiro, professor de Ética e Filosofia Política da USP, em sua obra O Afeto Autoritário, "o setor de política de comunicação se tem caracterizado, infelizmente, por uma inquietante omissão do poder público". A televisão aberta, que deveria constrastar distração e elevação, diversão e reflexão, apenas distrai, e da pior maneira possível. E aí mesmo naqueles momentos em que poderíamos - em tese - pensar (com os telejornais, por exemplo), acabamos de certa maneira não o fazendo. Acompanhamos os noticiários na tv também como uma forma de distração. Telejornal no Brasil é muito mais sinônimo de distração mórbida do que de informação; eles pouco conseguem fazer com que nós compreendamos mais profundamente a situação econômica e social do país. Neste sentido, apenas reforçam o espírito de alarmismo, e aquele sentimento muito difundido de que "tudo está uma droga e nada tem solução". Falta ao público a capacidade de reflexão em cima da notícia, e falta ao nosso telejornalismo a capacidade de suscitar essa reflexão.

Mesmo os telejornais brasileiros se mostram incapazes de suscitar reflexões pertinentes

Tudo isto dá à nossa televisão um caráter extremamente ditatorial que - por não ser diretamente advindo do Estado (embora indiretamente sim, porque o Estado é também responsável por este "quadro" que torna nossa população tão vulnerável e passiva diante de uma programação de tão péssima qualidade) - parece não nos incomodar. Muitos brasileiros não encontrariam dificuldades em constatar que uma televisão inteiramente controlada pelo Poder Executivo não é democrática (nosso recente passado político nos ensinou os males que podem ser causados por um Estado autoritário); nos esquecemos, porém, que uma tv inteiramente controlada por um empresário também não o é, viabilizando-se aí aquilo que o sociólogo francês Pierre Bordieu acertadamente chamou de "censura invisível". Nós precisamos de um caminho intermediário: nem um "pode tudo", nem um "não pode nada". O "pode tudo" é tão prejudicial e tão ditatorial quanto o "não pode nada". No "pode tudo" prevalece a ditadura do mesmo. Um exemplo: a igreja da Graça, do pastor evangélico Romildo Ribeiro Soares, possui hoje horários em várias emissoras de televisão. Isso não é uma afronta à democracia? Não haveria aí uma distribuição injusta do espaço, calcada apenas na lei do "quem pode pagar, leva"? Uma tv democrática não deveria ser aquela em que os membros de outras igrejas, e mesmo de outras religiões, pudessem aparecer e, assim, apresentar suas cosmovisões de mundo em condições de igualdade? Se não existe uma religião oficial no Brasil, não deveria então haver limitações para este tipo de "expansionismo"?

Com a contribuição financeira dos fiéis da sua Igreja da Graça, o pastor Romildo Soares acumula cada vez mais horários na televisão

Além das cotas de compromisso, é preciso também repensar a distribuição do espaço, implementando restrições necessárias que contenham os abusos - não apenas no campo da religião - e permitam que a televisão se desenvolva com diversidade. O mito da "liberdade de mercado", hoje tão inconscientemente difundido na mentalidade da população, nos faz ter ojeriza à idéia de um empresário sendo minimamente limitado por regras e leis. Porém, à medida em que, sem limitações, impõe-se arbitrariamente (e com nivelação por baixo) o que 180 milhões de pessoas devem assistir na televisão, esta "liberdade de mercado" acaba sendo um obstáculo ao desenvolvimento da liberdade intelectual de cada cidadão. Deve-se lembrar que, mesmo quando privado, um canal aberto é sempre voltado para toda a população e que - assim sendo - a tv não pode ser eximida de assumir responsabilidades para com este público cujos valores e opiniões ela tanto influencia.

* Fica como dica de leitura os tópicos A Omissão do Poder Público, A tese liberal contrária à censura e O uso do liberalismo econômico contra os deveres constitucionais da comunicação de massas, presentes no livro O Afeto Autoritário - Televisão, Ética e Democracia, de Renato Janine Ribeiro, professor de Ética e Filosofia Política da Universidade de São Paulo.

Rafael Issa é graduando em Filosofia pela Universidade de São Paulo e formado em Comunicação Social pela Universidade Metodista de São Paulo.