quinta-feira, 7 de maio de 2009

A interioridade no pensamento de Santo Agostinho

Noli foras ire, in teipsum redi: in interiore homine habitat veritas ("Não vás fora, entra em ti mesmo: no homem interior habita a verdade"). (Santo Agostinho)

Santo Agostinho (Aurelius Augustinus, 354-430 d.C.) - bispo de Hipona durante trinta e quatro anos e mais importante filósofo do período patrístico - foi um mestre da interioridade. Sua filosofia insiste na importância do homem interior, do voltar-se para si mesmo - na aposta de que a felicidade não pode ser encontrada no âmbito da exterioridade, e sim na esfera da intimidade. Ou seja, ao inspecionar o seu próprio espírito, o homem transitaria do exterior para o interior onde descobriria - na profundidade do Eu - o Absoluto, ou seja, Deus, verdade íntima em cada indivíduo. Neste sentido, Deus só poderia ser realmente encontrado através de um itinerário introspectivo. Observa-se então a influência que o pensamento de Platão e sobretudo do neoplatônico Plotino, pensadores da antiguidade, tiveram na filosofia agostiniana. Para Platão existe um mundo inteligível (de idéias perfeitas) que é o responsável pela existência do mundo sensível (esse em que nós vivemos, onde estão as cópias imperfeitas das idéias perfeitas). Através de uma dialética ascendente o homem - anteriormente preso "à caverna", aos "enganos dos sentidos" - pode se aproximar das idéias perfeitas, tornar-se um filósofo e "se salvar"; isto é Platão. Já para Plotino, o mundo inteligível se compõe de três partes: o Uno (realidade perfeita, inefável, imutável), o Nous (inteligência) e a Psique (Alma). O Uno gera o Nous, que gera a Psique, que gera o mundo sensível, tal como nós o conhecemos. Cada etapa deste processo - emanativo - é denominado hipóstase. A matéria, privada do bem, é má. Se tudo veio do Uno, tudo deve retornar ao Uno; isto é Plotino. O que há, portanto, na filosofia platônica, neoplatônica e agostiniana é uma hierarquização da existência pela divisão entre mundo superior e mundo material, a noção de que a verdade não pode ser encontrada simplesmente na relação homem-mundo exterior, e a idéia de que o ser humano tende a retornar para aquilo que lhe originou. Platão - influenciado por Pitágoras - acredita na teoria da metempsicose (reencarnação, transmigração da alma de um corpo para outro); antes de reencarnar, isto é, entre uma vida e outra, a alma (imortal) teria a oportunidade de contemplar as idéias perfeitas no mundo inteligível, ideal. Ao reencarnar, ao misturar-se com um corpo que acaba de nascer, a alma esquece temporariamente as idéias apreendidas anteriormente na esfera superior; assim, a percepção das coisas sensíveis seria um estímulo à reevocação das idéias inatas. Isto é importante: o mundo exterior para Platão se apresenta como o primeiro passo rumo à verdade, e não como verdade pronta; a verdade - plena - não está fora do homem, e sim dentro do homem. Tanto é que, ainda de acordo com o platonismo, o homem tem uma alma onisciente, que tudo sabe, mas ela "se esquece daquilo que sabe"; para Agostinho, Deus é verdade íntima no homem, fundamento primeiro e último do ser.


É preciso, entretanto, salientar as diferenças fundamentais entre Santo Agostinho e seus antecessores. Deus, para Plotino, não cria o mundo - ele emana; a idéia aqui é de que a partir de Deus vão se originando sucessivos graus de realidade; o mundo sensível constituiria a mais imperfeita dentre essas realidades que são emanadas inicialmente de uma realidade primeira e perfeita. O Deus de Plotino é o Uno, e o Deus de Platão é o Demiurgo, e eles são deuses impessoais, diferentes do Deus de Agostinho, que é cristão, antropomorfizado, pessoal, misericordioso, que conscientemente cria o mundo, o homem e o tempo. Plotino recebe influências do cristianismo, mas não é um cristão de fato, como Santo Agostinho o é. O conceito de criação é alheio ao pensamento grego antigo. De acordo com Platão e Plotino, o mundo sensível é resultado da emanação de uma matéria informe já existente (e que sempre existiu; isto é: nunca houve nada porque para o grego nada vem do nada). O Deus do Bíblia cristã cria - este sim do nada, tal como está escrito no Gênesis - uma nova realidade. E é neste sentido que a filosofia de Santo Agostinho pode ser considerada um divisor de águas na história da humanidade, pois marca a passagem entre a forma de pensar dos gregos antigos para a forma de pensar dos cristãos. Cria-se, portanto, a noção de criação. Agostinho viveu na chamada antiguidade tardia (fim do século IV, começo do século V), de modo que chegou a ver o mundo com olhos pagãos (antes de se converter ao cristianismo foi um pagão); por esta razão é possível dizer que foi, de certa maneira, o último homem antigo e - ao mesmo tempo - o primeiro homem medieval; por um lado agrega no seu pensamento aspectos da filosofia antiga e por outro vai separando-se dela.

Há na filosofia agostiniana uma relação de harmonia entre e Razão; a fé não pretende amaldiçoar a razão, a razão não pretende desmentir a fé. Seu pensamento propõe uma filosofia teológica e uma teologia filosófica. Um homem não poderia crer se fosse um animal irracional - logo, é a razão que possibilita e explica a fé. Assim, a fé - para o bispo de Hipona - é também razão; não é mera aposta conveniente (como em Pascal) ou um mero lançar-se (como em Kierkegaard). Para Agostinho existem duas Razões: uma precede a fé, e a outra procede a fé. Ou seja, a fé se encontra no meio. A primeira razão (de abertura) - que ainda não foi iluminada pela fé - dá indicíos de que vale a pena crer. A segunda razão - já iluminada pela fé - busca entender aquilo no que crê. A razão possibilita o livre-arbítrio. Na filosofia agostiniana liberdade é o uso correto do livre-arbítrio, ou seja, nas palavras de Santo Anselmo: "querer o que se deve". Observa-se então uma diferença em relação ao conceito moderno, onde liberdade tem o significado de autonomia individual. Ao dizer "Ama e faz o que tu quiseres. Se calares, calarás com amor; se gritares, gritarás com amor; se corrigires, corrigirás com amor; se perdoares, perdoarás com amor. Se tiveres o amor enraizado em ti, nenhuma coisa senão o amor serão os teus frutos", Agostinho anuncia uma liberdade necessariamente presa, atrelada ao amor - condição, para ele, imprescindível na fuga do pecado. Toda forma de liberdade que não tem o amor como pressuposto é, na metafísica agostiniana, escravidão. O uso equivocado do livre-arbítrio é a origem do mal no mundo - mas este mal não existe em si mesmo e sim como carência de bem; o mal é privação, depende da corrupção do bem para se constituir como mal. Adão e Eva não escolheram entre o bem e o mal (não há Sumo Mal), mas sim entre o Sumo Bem (a vontade de Deus) e os bens inferiores (o fruto proibido). Se Deus é verdade íntima no homem, ao se afastar de Deus, o homem se afasta de si mesmo; ao se esquecer de Deus, se esquece de si mesmo. É quando o homem cai em dispersão e vive angustiado. Entretanto, Agostinho alerta que esse afastamento nunca se dá de maneira completa; se um homem ainda existe, é porque Deus continua sustentando o seu ser - e aí reside a esperança. A reaproximação com Deus se daria através de uma trajetória inversa: ao invés de primeiro procurar a si mesmo, dizer "quem eu sou", e somente depois procurar Deus e dizer "quem é Deus", o homem teria de primeiro procurar Deus e dizer "quem é Deus". Para Agostinho, Deus não se afasta do homem, mas o homem é quem se afasta de Deus. Portanto, acredita que se a criatura - despida de orgulho - for capaz de dizer quem é o seu Criador, o Criador poderá - por fim - pegar esta criatura no colo e dizer quem ela é.

Sero te amavi, pulchritudo tam antiqua et tam nova ("Tarde te amei, ó beleza tão antiga e tão nova"). (Santo Agostinho)

* Ficam como dicas de leitura, além - obviamente - das obras do próprio Agostinho, os livros Introdução ao Estudo de Santo Agostinho, de Étienne Gilson (já falecido filósofo francês), A razão em exercício - Estudos sobre a filosofia de Agostinho, de Moacyr Ayres Novaes Filho (professor de Filosofia da USP), e A Relação entre Deus e o Mal Segundo Santo Agostinho, de Joel Gracioso (professor de Filosofia do UNIFAI).

Rafael Issa é graduando em Filosofia na Universidade de São Paulo (USP) e formado em Comunicação Social pela Universidade Metodista de São Paulo (UMESP).

7 comentários:

  1. Parabenizo o autor pelo conteúdo bem exposto ascendente. Muito boa fonte de pesquisa

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  2. Adorei, vai me ajudar muito na prova de filosofia amanha !

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  3. legal isso vai me ajudar a emtender o conteudo melhor

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  4. muito bom, vai me ajudar demaisssss na prova amanha hahaha

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  5. Quem disse que o texto está muito ruim é um asno com invejinha do autor, pois está excelente!

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  6. Ótimo texto, boa leitura. Com certeza, muito esclarecedora. Parabéns ao autor.

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